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Esta cidade decrépita e mórbida, que resta, serve de tão pouco nas minhas mãos cansadas e desconcertadas, meu amor. Tu, secalhar, não entendes as flores em cinzas que te embrulhei em caixas de cartão azul e cinzento e te ofereci já com as unhas a sangrar uma constelação de palavras entornadas no tapete, mas a verdade é que isto é tudo o que sobra depois de me esgotares os dedos com que te toco e te explico as sensações mais simples como o frio, o medo, a música, o arrepio, as estrelas ou a estética.
Entretanto vou-me dissipando horizontal, mecânico e céptico. Lá fora as crianças são uma poesia desconhecida e eu já nem me importo, já nem ouço como dantes. Agora sou só aqui deitado com o sexo a apodrecer na mesa de cabeceira e tu lá ao fundo, desenhada na terceira moldura amarela e lilás da minha cómoda antiga e mastigada de poemas perdidos e caruncho (mais caruncho que outra coisa, no fundo). Diz-me, por favor, que ainda existo e me podes plantar um malmequer no coração. E que o regas todos os dias com a saliva que sobra das palavras. César Romeu, 2010 |
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